Monday, February 12, 2007



Serviço de Urgência


“Sou melhor que tu, até no serviço de urgência! (Não, o meu serviço de urgência não é melhor que o teu. Nisso estamos todos no mesmo nível: mau! No Luxemburgo é que era!!! Por falar nisso, e se não votássemos no referendo? No Luxemburgo era o povo quem mandava e no tempo do Salazar é que era!!!)
Mas queres saber porque sou melhor que tu? E digo-te! A minha colecção de pulseiras é maior que a tua e como se não bastasse tenho três vermelhas, duas laranja e quatro amarelas! E tu? Ah ah ah, só tens azuis e uma verde! “

Não foi literalmente isto, mas foi mais ou menos isto, que se ouviu na sala de espera das urgências do Hospital de Santo António na manhã de 7 de Fevereiro de 2007. Acreditem que a descrição tem pouco de ironia!

Sunday, January 21, 2007


Rua Escura
Do desafio lançado no âmbito da disciplina de Projecto IV para o estudo de uma rua do centro do Porto, surgiu a primeira e mais árdua etapa: a opção por uma das muitas ruas possíveis.
A intenção de seleccionar uma rua que transmitisse o espírito da cidade, marcou o arranque deste exercício que se debruçará sobre uma particularmente característica rua da baixa da cidade: a Rua Escura.

Protegida pela sombra da Sé do Porto, a Rua Escura é a porta de entrada para quem, deste lado da cidade, decide penetrar na extensa rede de percursos de acesso à Ribeira.
Da cidade luminosa à escala da Sé, da estação de São Bento e da Avenida da Ponte, somos introduzidos por esta rua à escala d` “a casa”, da família, do espírito bairrista.
Descemos da cidade à rua, onde o caos deixa de ter voz e o eco nasce na sobra fria das fachadas irregulares e das varandas que ameaçam ruir.

Das construções de três ou quatro pisos (mais um recuado, por vezes) destacam-se diversos elementos morfológicos que adornam humildemente as construções como molduras que delimitam planos de um mesmo quadro: ombreiras, padieiras, cornijas e soleiras em granito, mais ou menos ricas no detalhe e na ornamentação, evidenciam portas, janelas, varandas de madeira ou ferro e marcam a transição para outras texturas que compõem a fachada como os azulejos ou reboco ricos em cores fortes atenuadas com o tempo.

O chão empedrado, com cerca de três metros de largura, é invadido por pequenos degraus de acesso às habitações e separa as fachadas que recortam, com a sua verticalidade, a linha do céu de modo irregular.

A acentuar o ritmo vertical, observamos o alinhamento de portas e janelas que deixam transparecer o carácter humilde de quem as habita.
Nas varandas que repousam sobre a rua, o ferro das grades rodopia e fluí em tons de ferrugem.
O tempo por todo o lado deixou as suas marcas: as pessoas, as paredes, as varandas, os telhados, reflectem a força que a gravidade lhes exerceu.

Durante o dia, as casas vestem-se de panos que dançam e secam à passagem do vento e a rua transforma-se numa montra de frutas e legumes que aguardam, em caixas de madeira ou plástico, pelo cliente seguinte.
Chegamos ao fim da rua sabendo o que irá compor a refeição de cada casa, pelo aroma que nos chegou. Estamos no Largo da Cruz do Souto de onde arranca a Rua da Banharia.

Quando subimos novamente e vemos, no horizonte, a escala da cidade que esquecemos, sentimos que chegou a hora da despedida, da aventura…saímos de casa, mesmo sabendo que aquela não era a nossa.

Saturday, December 16, 2006

Manô- um excelente filme de Leonel Vieira


Play

Também queria compilar todos os nossos bons momentos para poder revê-los através de um pequeno toque no play e, depois de partir, voltar para te encontrar e vive-los contigo.

Friday, September 15, 2006

Berlim 2005
Morgue
Quando nos dizem quanto tempo nos falta, sem nos dizerem ao certo a quanto é que isso equivale, tudo o que nos rodeia transfigura-se.
Além das novas prioridades que se traçam, do repensar sobre os valores que nos guiam...há um outro pensamento que nos acompanha: “e depois, o que vou ser eu para todas estas pessoas que me rodeiam?”
Encaramos a morte como uma borracha de memórias como que se, depois da nossa, tivéssemos tempo para pensar na melhor forma de lidar com ela.
Vivemos toda a vida a fugir dela, pensando sempre que teremos tempo para tudo, adiando pequenos gestos que , na falta de um de nós, se convertem em gestos imensamente grandes.
Não a(die)s mais o que tens para me dizer.

Friday, August 25, 2006

Insanidades mentais

Não há imagem capaz de ilustrar este sentimento.

Hoje, durante as suas declarações sobre os objectivos do FCP para esta época, Jesualdo Ferreira cometeu o erro de assumir que os objectivos que estipulou para a sua equipa, são os mesmos que movem a população portuense há alguns anos: serem os melhores!

Antes de mais, e para que não se exaltem os ânimos tripeiros informo que também eu faço parte desse grupo de cidadãos que nasce e desenvolve actividade no Porto. Contudo, não sinto aquele orgulho que gostaria de sentir quando me perguntam de onde sou e respondo “do Porto”. Não sinto porque, se há uma parte da população portuense que me faz orgulhar de assumir que sou do Porto, outra tanta há que me faz envergonhar da minha proveniência.

O objectivo de serem os melhores, tendo como ponto de referência Lisboa, é uma história caduca, mesquinha e que revela dor de coto. Infelizmente rio-me quando projectos como Porto 2001 ou Metro do Porto, que partem de exemplos como Expo 98 e Metro de Lisboa , não cumprem esse objectivo de serem os melhores.

Num país tão pequeno como Portugal, não consigo compreender como é possível manter o discurso de filho menor, de ovelha negra, segundo plano ou o que lhe quiserem chamar. A solução sería, possivelmente, analisar as necessidades da cidade e querer fazer bem, em vez de fazer melhor. Em vez de ter, só porque os lisboetas têm .

Possivelmente, até seríam os melhores, se bem que isso pouco me interessa. Preocupo-me mais ter uma cidade onde não sinta esse medíocre bairrismo, com um metro que funcione em condições e que me transporte até à Póvoa de Varzim num período inferior a cinquenta minutos ( três vezes superior ao tempo que demoro a fazer de carro), com infra-estruturas que apelem à utilização do comum portuense e não apenas ao restrito núcleo intelectualoide da cidade. ( agora fui severa, porque já se verifica a existência de alguns corajosos que ignoram a arrogância e elitismo de alguma da classe artística portuense integrando-se nos circuitos artísticos da cidade.)

Revolta-me que, na minha geração de 80, existam pessoas que se recusem a visitar Lisboa por ser “território Mouro”. Arrepia-me a agressividade das claques de futebol desta e da outra cidade, entristeço ao pensar na revolta que vos causa ler estas palavras.
No meio de tanta raiva, tanto pudor, tanta mesquinhez, acho um tremendo acto de hipocrisia a gloria patriótica que vos corre no sangue quanto juntos entoam os cânticos de apoio à selecção nacional. A selecção de um país que a vossa inveja divide!

Monday, August 21, 2006

Linha girly
Necrotomia medico social


Os factos têm se sucedido a uma velocidade tal, que a sua assimilação tem sido impossível.
Surgiu então a dúvida sobre essa dificuldade de assimilar. Devia-se à velocidade da sucessão ou à complexidade dos fenómenos? A resposta : ambas.

Tudo começou na secretaria da escola que o meu educando frequentará este ano. A minha vida é marcada por episódios caricatos nesses locais da tutela do meu querido Ministério da Educação. (Esse que perdeu o meu processo de acesso ao ensino superior e que me deitou fora da primeira fase de concurso, em que as vagas esgotaram para os locais e cursos que eu pretendia onde, por acaso, entrava com média e nota de exame vários valores acima do último colocado. Este parêntesis apenas para, mais uma vez, dizer “obrigadinha!” em retribuição às “desculpazinhas” do gabinete do Sr. Primeiro Ministro, Sr. Presidente da Republica e Sr. Ministro da Educação) .

Dizia eu que tudo começou lá, na secretaria, onde me dirigi com o meu educando, para tratar do seu pedido de transferencia . Após uma interminável espera, fomos atendidos. Exposto o assunto informaram-nos sobre a necessidade de adquirir um boletim de transferencia no extremo oposto da escola ( que por acaso é bem grande!). Adquirimos o dito impresso, e após o seu preenchimento dirigimo-nos novamente à secretaria. Entregamos o papelucho e o Sr. funcionário diz “Pronto, agora é só aguardar resposta”. Compreendo que não encontrem qualquer anormalidade no facto, mas eu elucido. O dito boletim não solicitava mais informações sobre o meu educando além do seu nome, motivo pelo qual pedia transferencia e morada. Não questionava sobre área de estudo, escola de proveniência, número de b.i.... Como poderia o Sr. funcionário dizer-me “Pronto, agora é só aguardar resposta” se não podiam tratar do processo sem esses dados??? E confrontei o Sr. Funcionário com esta minha dúvida à qual ele respondeu “ah! Pois é...” Só lhe faltou bater com a mão na cabeça como no anúncio dos jogos da Santa Casa.

Mas o mais caricato foi quando o Sr. funcionário, baralhado com a situação, reuniu os restantes quatro funcionários da secretaria, parando assim os serviços de atendimento porque todos se encontravam a conspirar em torno do papelucho como se algo demoníaco se tratasse. Já no meu tempo era assim que se resolviam os problemas nas secretarias!

Depois de tudo isto, lá ficaram com a informação escrita na vertical, horizontal, diagonal e outras formas possíveis no papelucho e pude vir embora.

A caminho de casa deparo-me com um exemplar humano do sexo masculino que decidiu ir a escarrar durante todo o caminho. Com uma velocidade de passo tal ,que me impedia de o ultrapassar, e a pressa que eu levava comigo não me permitia esperar que o dito espécime se afastasse para que eu pudesse prosseguir tranquilamente o meu caminho.

Quase fui atropelada em todas as passadeiras até chegar a casa. Até que cheguei. Entrei. Fechei a porta. Pouco tenho saído porque assusta-me não compreender o que se está a passar à minha volta.

Assusta-me que se aguarde tranquilamente pela chegada do dia em que tudo vai mudar; Que se acredite que o tempo chega para nos mudarmos a nós e aos outros; Assusta-me esta incoerência entre o progresso e a regressão, esta disparidade de tudo o que me rodeia. Mas sobretudo, assusta-me não ter mais tempo, nem força para fazer deslizar o meu bisturi.

Friday, August 11, 2006

Drop D Paredes de Coura 05
Drop D - Operação bem sucedida

Porque nos orgulhamos que existam vários cirurgiões mentais neste país, achamos que seremos úteis ao divulgar, neste espaço, o seu trabalho.

A equipa que trago hoje é exemplo uma intervenção cirúrgica bem sucedida.

Falo-vos de Drop D, uma banda promissora do concelho de Valongo, da qual fazem parte Daniel Faria ( bateria), André Feliciano (guitarra), Nuno Queirós (guitarra), Tito Fonseca ( baixo), Marina Faria (voz), Joana Ferreira (Voz) e o convidado para a interpretação de alguns temas, José Augusto.

A sua sonoridade compreendida entre o Trash Metal e o Rock Progressivo, que tem vindo a adquirir um arrepiante poder de sedução junto daqueles que assistem às suas actuações ao vivo, exige que esta seja uma banda a ser seguida por um olhar atento daqueles que apreciam este tipo de sonoridade.

Para aqueles que não acreditam na agressividade feminina, não percam a oportunidade de assistir ao poder instrumental de Drop D e às invulgares características vocais de Marina Faria e Joana Ferreira em Paredes de Coura a 16 de Agosto pelas 16h no palco Bandas de Garagem, perto da Câmara Municipal.

Foto:Miguel Correia Berlim 05

Analgésico para dores sentimentais

Tudo começou por um aperto no coração, seguido por um sufoco na garganta. Uma asfixia intensa atordoa-nos e os resultados da falta de oxigenação cerebral fazem-se sentir de imediato. Perdemos o chão, perdemos o rumo...perdemo-nos.

Sim, perdemo-nos porque sei que também sentes o mesmo que eu, aliás, todos o sentimos quando a outra metade de nós nos falha. Para aqueles que nunca sentiram o chão a fugir, é melhor que parem por aqui esta leitura, porque aquilo que aqui vão ver escrito não passará, à vossa vista, de um puro disparate. Sorte a vossa, ou não!

Sorte porque tudo vos continua a parecer maravilhoso, porque se julgam invencíveis porque, para vocês, o amor próprio ainda se eleva acima de todas as vozes. Têm a sorte do vosso lado a atribuir-vos uma luminosidade invejável em tons de liberdade e alegria.

Têm sorte mas não vos invejo. Não vos invejo rigorosamente nada! Não sentem esta paixão que nós agora sentimos pelas pequenas coisas, pelos pequenos momentos. Não se vos encharcam os olhos com um gesto de carinho. Não sentem esta força, que se ganha depois do tombo, a puxar-vos para um sitio mais seguro. Não sentem este medo de não voltarem a ser capazes, esta incapacidade de esquecer, este amor derradeiro a consumir-vos a alma. Não sentem nada disto que dói sentir mas que nos cura e nos transforma.

Agora sim, percebo o porquê de nunca se terem inventado analgésicos para dores sentimentais.